"Brasil está perdendo a oportunidade de vender expertise em BRTs" Imprimir E-mail
O Brasil está perdendo a oportunidade de vender sua qualificação para realizar projetos e para implantar corredores de transporte público por ônibus, hoje conhecidos internacionalmente pela expressão Bus Rapid Transit ou BRT. O alerta é feito pelo engenheiro e consultor, membro da ANTP, Helcio Raymundo, que, no início de maio, participou como expositor de uma das sessões da 2009 APTA Bus & Paratransit Conference, International Bus Roadeo, And Bus Rapid Transit Conference, promovida na cidade norte-americana de Seattle pela American Public Transportation Association (APTA) - justamente a sessão que buscou debater oportunidades para empresas e investidores norte-americanos em sistemas de transporte por ônibus ao redor do mundo.

Nesta entrevista, o especialista brasileiro salienta que os norte-americanos vêm se preparando muito bem para atuar na implantação de projetos de BRT, usando como plataforma para aprimoramento nesse tipo de infra-estrutura e serviços os conhecimentos recolhidos em deferentes parte do mundo, inclusive no Brasil, e a experiência obtida com projetos implantados em seu próprio país.

Informativo ANTP - No início de maio, o senhor participou como expositor de uma das sessões da 2009 APTA Bus & Paratransit Conference, International Bus Roadeo, And Bus Rapid Transit Conference. Qual foi a sua mensagem naquela ocasião?

Helcio Raymundo - Participei de uma sessão especial do evento, voltada para discutir oportunidades para empresas e investidores norte-americanos fora dos Estados Unidos. Foram convidados a apresentar suas idéias um representante dos Emirados Árabes Unidos, que acabou não participando; representantes da Austrália e da Índia e eu, que representava a ANTP e o Brasil. O representante da Austrália, Scott Grenda, é presidente da associação dos fabricantes de ônibus; o representante da Índia, Ajai Mathur, é o presidente do órgão gestor da Nov Delhi. Essa sessão foi moderada por Jeff Wharton, da própria APTA. Cada expositor teve quinze minutos para fazer a sua apresentação e houve um tempo para perguntas e respostas, num processo bastante rico.

Informativo ANTP - Qual foi a linha da sua apresentação?

Helcio Raymundo -Procurei apresentar a realidade brasileira do transporte público, sublinhando o fato de o Brasil ser uma referência mundial neste setor. O País é o terceiro produtor mundial de ônibus, tem uma frota considerável, de razoável qualidade, pratica um transporte público de qualidade, e tem a primazia de ter desenvolvido o projeto de Curitiba. A sessão fazia parte de um congresso que discutia exatamente o transporte de passageiros por ônibus, e a questão dos BRTs foi muito abordada em muitas das apresentações, sessões e trabalhos técnicos levados ao evento. E foi Curitiba que criou o BRT! Creio ter conseguido salientar esse fato, frisando que isso não foi um acidente; e assegurei também que o Brasil não parou no tempo e que tanto o projeto de Curitiba com o BRT continuam avançando. Também afirmei que, em que pese o que já conquistamos, precisamos evoluir ainda mais, e que o Brasil não vê problemas em ter parcerias e cooperação com empresas e organizações de outros países, dentro de sua política industrial e dentro de sua política de relações exteriores.

Informativo ANTP - E a curiosidade a respeito do que acontece no Brasil?

Helcio Raymundo - É muito grande. Num fórum dessa natureza, com investidores e especialistas em transportes, os participantes têm, naturalmente, uma boa noção do que ocorre no Brasil. De todo modo, creio ter ter conseguido mostrar com mais clareza alguns pontos, em especial, o fato de o Brasil, como a nona economia do mundo, estar consolidado na área do transporte público. Meus interlocutores demonstraram muita curiosidade sobre como está Curitiba e o que vai acontecer no futuro na capital do Paraná, e como estão outras cidades. E suas perguntas foram sempre muito pertinentes. Eles se interessaram muito por minhas informações a respeito da adoção de ITS - Sistemas Inteligentes de Transportes no País, em especial pelo fato de todas as cidades brasileiras com mais de 500 mil habitantes já possuírem sistemas de bilhetagem eletrônica. Alguns deles disseram pensar que estivéssemos num estágio ainda inicial da adoção desse tipo de tecnologia, e se surpreenderam quando informei que estamos próximos de utilizar a tecnologia que permitirá fazer com que os telefones celulares substituam os cartões eletrônicos.

Informativo ANTP - E quanto ao tamanho do mercado brasileiro nesse campo?

Helcio Raymundo - Os participantes da sessão realmente ficaram curiosos para entender o tamanho do mercado brasileiro. Nós temos um tamanho muito grande. Tudo é muito grande. Isso interessa particularmente ao mercado norte-americano que é, também, logicamente, um mercado muito grande. Nesse encontro em Seattle, percebi a ocorrência de dois fenômenos que precisam ser destacados. Primeiro, o Brasil tem tido um papel de destaque nos fóruns internacionais por seu desempenho econômico. Os fundamentos econômicos do País revelam-se sólidos e isso está muito claro para o mundo; assim, nossa imagem é muito positiva, e isso está validado cientificamente. Um segundo ponto é que está havendo o renascimento do transporte público nos Estados Unidos e isso é muito forte por lá. Os norte-americanos estão dominando o processo de BRTs, daí sua curiosidade sobre o que se passa em outros países nesse campo. E notei que, hoje, os norte-americanos estão dominando o processo inteiro, desde a concepção e planejamento, passando pela fase de projeto e chegando à operação e manutenção. Eles estão com cerca de 25 projetos BRT em andamento e outro tanto em planejamento, fora os que já foram implantados. Nos país inteiro, isso é uma coisa muito forte, movimentando todos os setores da cadeia produtiva.

Informativo ANTP - Essa sua colocação sublinha um aspecto auspicioso ou se trata de um alerta? Em outros termos, o Brasil não perdeu tempo em buscar oportunidades no mercado externo?

Helcio Raymundo - Perdeu. Esse foi o contraste da minha fala. O Brasil é referência, tem um mercado grande, está avançando, está consolidado, mas deveria ter avançado mais. Então, é possível ver dois lados quanto a esse momento vivido pelos norte-americanos. De um lado, auspicioso, como você falou - se algum outro país está avançando num determinado terreno, sempre será possível compartilhar algo com esse país, porém, no âmbito na competição internacional, poderemos perder, uma vez que os norte-americanos investiram e chegaram primeiro. Temos deficiências quanto a buscar o mercado externo; por exemplo, nossos operadores são, em geral, muito bons, mas eles têm um pouco de medo de cruzar a fronteira e atuar em outros mercados, e isso precisa ser superado.

Informativo ANTP - Foi possível convidar alguns dos participantes do encontro de Seattle para o 17º Congresso da ANTP, a se realizar em Curitiba, nos últimos dias de setembro e início de outubro?

Helcio Raymundo - Sem dúvida. O interesse foi muito grande. Depois da sessão, conversei com diversos empresários e especialistas e trocamos cartões. A todos eles eu pude fazer um convite específico para participar do 17º Congresso da ANTP, em que haverá uma conferência justamente sobre os rumos do transporte público nos Estados Unidos. Para o público brasileiro eu digo: será uma excelente oportunidade para compreender melhor que está acontecendo nos Estados Unidos e, também identificar oportunidades.

 

Informativo ANTP